por Jorge Tomé Santos / 6.02.1011

Há muitos, mesmo muitos, anos atrás, o cartaz dos cinemas de Lisboa era muito mais interessante, variado e havia praticamente de tudo para todos os gostos. Do circuito de cinemas então em funcionamento faziam parte o Politeama e o Odeon, duas salas que se especializaram, entre outras coisas, em filmes italianos de canibais e zombies.

E o que é que estes filmes tinham em comum? Uma péssima dobragem em inglês; elencos de talento duvidoso, onde pelo menos um actor era de origem anglo-saxónica; muito, mesmo muito sangue; efeitos especiais muito realistas e capazes de chocar os espectadores mais sensíveis; eram porcos e feios; ; eram, com raras excepções, interditos a menores de 18 anos (a minha sorte é que parecia mais velho do que na realidade era e assim conseguia entrar nesses filmes).

SPAGHETTI CANIBAIS

Não condenem os meus pais por isto (eu era muito chato e manipulador), mas tive a minha primeira “experiência” canibal aos 13 anos. O filme chamava-se A MONTANHA DO DEUS CANIBAL, estreou no Politeama em 1978 e a cabeça de cartaz era a boazona da Úrsula Andress (aquela que no filme do 007, DR. NO, saía do mar num “escaldante” fato de banho). A pobrezinha não era grande actriz, nem o filme era muito bom, mas foi a primeira vez que vi canibais a comerem o seu petisco favorito.

Voltaria ao mundo dos canibais em 1981, ano em que no Odeon apareceu o COMIDOS VIVOS e que no Politeama estreou o famoso HOLOCAUSTO CANIBAL (cujas fotos apareceram na revista PHOTO). Este último é capaz de ser um dos filmes mais nojentos que já vi, mas era tão realista na sua violência que custava a acreditar que se tratava apenas de um filme. Precedendo o BLAIR WITCH PROJECT, o filme era vendido como “A equipa que filmou as terríveis sequencias deste filme foi aniquilada pelos canibais. Uma expedição especial, correndo enormes perigos, conseguiu, porém, recuperar o material filmado.”

Consta que a sequência em que uma mulher é empalada viva, levou a que o realizador fosse acusado de crime; só se livrou da acusação porque a actriz apareceu viva; mas ele nunca se livrou da fama de ter torturado e assassinado animais (a cena da tartaruga é horrível) para o “bem” do filme. De todos os filmes que vi deste sub-género, este foi o que, sem dúvida, chocou mais gente.

SPAGHETTI ZOMBIES

Também foi no Politeama, mais uma vez pela mão dos meus pais, que vi o primeiro filme de zombies. Quando o filme de George Romero A MALDIÇÃO DOS MORTOS VIVOS estreou em Lisboa não consegui convencer (por razões que não me recordo) os meus pais a levarem-me a vê-lo. Mas vi o trailer e fiquei a “babar-me”. Meses mais tarde estreava no Politeama o filme de Lúcio Fulci ZOMBI 2 – A INVASÃO DOS MORTOS VIVOS e desta vez lá consegui persuadir os meus pais a levarem-me (o facto da minha mãe gostar do género ajudava muito).

Qualquer filme que comece com uma luta sub-aquática entre um zombie e um tubarão, tem a minha completa atenção e, apesar do filme ser mau, tecnicamente era extremamente realista (um dos momentos mais famosos é a cena quem que uma das raparigas observa uma lasca de madeira aproximar-se perigosamente

de um dos seus olhos, com resultados verdadeiramente sádicos; noutra cena, uma jovem é mordida na garganta e a sua carótida é sorvida qual esparguete por um zombie).

Lúcio Fulci, sem dúvida o especialista italiano de zombies, voltaria ao assunto em pelo menos mais três títulos doentios. Dois deles, AS SETE PORTAS DO INFERNO e OS MISTÉRIOS DA CIDADE MALDITA, estrearam no Politeama e o outro, A CASA DO CEMITÉRIO, estreou no Odeon. Todos tinham ideias interessantes, mas os actores eram maus e a lógica era algo que não interessava muito a Fulci.

Tenho que confessar que não gostei de nenhum deles, mas tinham uma qualidade única – eram peganhentos e saíamos do cinema a sentirmo-nos sujos; era como se qualquer coisa de estranho se tivesse colado a nós e essa sensação custava a desaparecer. Mais que filmes, eram verdadeiros pesadelos, onde ninguém estava a salvo e onde tudo podia acontecer.

Por exemplo, quando vi OS MISTÉRIOS DA CIDADE MALDITA, fiz um inventário das coisas que aconteciam ao longo do filme, e para ficarem com uma ideia do que estou a falar, reproduzo aqui o mesmo: “enforcado, minhocas, aparições, sessão espiritismo, rapariga morre deitando tripas e órgãos pela boca, ladrão de túmulos, pervertido, uma cabeça é trespassada lado a lado por uma broca, tempestade de vermes, profanadores de túmulos, ratos, sepultada viva, zombies canibais”. No contexto do filme, muitas destas coisas não faziam grande sentido, mas que ajudavam a criar um ambiente surrealista e demente, ajudavam.

Quanto ao A CASA DO CEMITÉRIO, ainda hoje tenho uma amiga que, por causa deste filme, ainda tem medo que alguém lhe puxe as pernas por debaixo de uma cadeira ou cama. Os filmes não eram bons, mas deixavam a sua marca.

Quanto aos cartazes, tinham frases publicitárias hilariantes. Que saudades desse tempo!

SPAGHETTI ALIENS

E já que estamos numa de filmes de terror italiano, estes também tiveram as suas imitações do ALIEN de Ridley Scott. Chamaram-se UMA AVENTURA FASCINANTE e ALIEN VOLTA A ATACAR e ambos aterraram no Politeama. Sofriam dos mesmo mal dos filmes de zombies e de canibais, os actores eram maus, o som era dobrado, mas a carnificina abundava e os efeitos especiais eram suficientemente realistas para chocar os mais sensíveis.

Tanto num como no outro a acção passava-se na Terra. No primeiro, humanos cultivam ovos extra-terrestres e, no final, os heróis têm que enfrentar uma mãe-alien. No segundo, um grupo de jovens anda a explorar umas grutas e, um pouco à la John Carpenter's THE THING, vão sendo consumidos por algo extra-terrestre.

Hoje em dia não temos nada disto nos nossos cinemas e, apesar da qualidade desses títulos ser muito duvidosa, o que é certo é que tinham os seus fiéis seguidores e o seu lado sujo e impuro iria contrastar com os actuais filmes de terror, onde os actores são todos muito perfeitinhos e onde tudo é tão clinicamente limpo que até chateia.

FICHA TÉCNICA

A MONTANHA DO DEUS CANIBAL (La Montagna del Dio Cannibale / Slave of the Cannibal God / Primitive Desires / Mountain of the Cannibal God) de Sergio Martino / 1978

COMIDOS VIVOS (Mangiati Vivi! / Doomed to Die / Eaten Alive by the Cannibals! / The Emerald Jungle) de Umberto Lenzi / 1980

HOLOCAUSTO CANIBAL (Cannibal Holocaust) de Ruggero Deodato / 1980

ZOMBI 2 - A INVASÃO DOS MORTOS VIVOS (Zombie Flesh Eaters / Zombie / Zombie 2: The Dead are Among Us / Island of the Living Dead) de Lucio Fulci / 1979

AS 7 PORTAS DO INFERNO (E Tu Vivrai Nel Terrore - L'aldilà / The Beyond / Seven Doors of Death) de Lucio Fulci / 1981

OS MISTÉRIOS DA CIDADE MALDITA (Paura Nella Città dei Morti Viventi / City of the Living Dead/ The Gates of Hell) de Lucio Fulci / 1980

A CASA NO CEMITÉRIO (Quella Villa Accanto al Cimitero / The House by the Cemetery / Zombie Hell House) de Lucio Fulci / 1981

UMA AVENTURA FASCINANTE (Contamination - Alien Arriva Sulla Terra / Contamination / Alien Contamination / Toxic Spawn) de Luigi Cozzi (também conhecido por Lewis Coates) / 1980

ALIEN VOLTA A ATACAR (Alien 2 - Sulla Terra / Alien 2: On Earth / Strangers / Alien Terror) de Ciro Ippolito (também conhecido por Sam Cromwell) / 1980


 

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